A melatonina, descoberta em 1958 pelo dermatologista Aaron Lerner, é um dos principais hormônios produzidos pelo nosso organismo. Mas você sabe para quê serve a melatonina e como exatamente ela atua no corpo humano?
Há alguns anos, a melatonina se popularizou como um “remédio natural” para tratamento de insônia e outras dificuldades relacionadas ao sono que comprometem os níveis de energia e o funcionamento do corpo como um todo – afinal, dormir bem é um dos pilares fundamentais para manter uma boa qualidade de vida.
No entanto, apesar de uma demanda crescente no Brasil, apenas em outubro de 2021 a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou sua comercialização em todo o país como suplemento alimentar, seja em forma de comprimido, cápsula, gotas e até mesmo tabletes mastigáveis (as chamadas gummy sleep) por preços que variam conforme a procedência e a tecnologia empregada para sua produção. Antes disso, só era possível obtê-la por meio de manipulações realizadas por farmácias especializadas e sob prescrição médica.
Neste artigo, trouxemos informações gerais sobre os benefícios da melatonina e sua relação com a qualidade do sono e o ritmo circadiano.
Confira!
Como O Corpo Produz Melatonina?

Embora a suplementação de melatonina esteja em alta, é importante destacar que o corpo humano é capaz de produzi-la por conta própria.
Sua síntese ocorre na glândula pineal, situada no cérebro, e sua liberação inicia à medida que a iluminação natural do dia cai, sendo que seu pico de produção acontece entre às 3 e 4 horas da madrugada – variando, naturalmente, conforme a individualidade de cada pessoa.
Vale destacar que, por ser sensível à luminosidade, a melatonina apresenta um padrão de liberação dia-noite, com níveis mais elevados no início da noite e queda no final.
Desta forma, cabe aqui a reflexão sobre a importância de se respeitar os ritmos naturais do organismo.
A Melatonina E O Ciclo Circadiano

Quando falamos da ação cronobiológica da melatonina, ela se relaciona diretamente com o nosso ciclo circadiano. O ciclo circadiano (ritmo biológico também conhecido como ritmo circadiano) é o mecanismo de regulação do nosso organismo entre o dia e a noite. Ou seja, é a partir dele que o organismo e seus sistemas se adaptam à duração do período claro (dia) e do período escuro (noite).
Através do ciclo circadiano, ocorrem oscilações de funções fisiológicas – como acordar, sentir fome, estar ativo, sentir sono, entre outras -, sendo que cada oscilação tem duração de cerca de 24 horas. E, nas condições naturais de um ciclo claro-escuro, temos uma produção rítmica circadiana de melatonina: a produzimos durante a noite e suprimimos essa produção durante o dia, quando estamos expostos à luz – daí a maior facilidade e importância de dormirmos no escuro, bem como de evitarmos telas e luzes artificiais em outros turnos que não o diurno, e de termos uma rotina de sono bem estabelecida.
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Melatonina pode mesmo ser chamada de hormônio do sono?
Há quem prefira chamar a melatonina de hormônio do escurecer em vez de hormônio do sono. Isso porque ela oferece benefícios e efeitos que vão muito além de proporcionar condições mais favoráveis para dormir, e – como a própria menção demonstra – a sua produção se dá exclusivamente à noite, em ambiente escuro.
A melatonina age preparando a pessoa para o relaxamento ao longo da noite e otimizando a indução do sono.
Ao atuar em sincronia com a cronobiologia do organismo, como um mensageiro que avisa o corpo de que já é noite, ela induz as alterações necessárias para o repouso, como o sono, a redução da temperatura corporal, da pressão arterial e da frequência cardíaca, a diminuição da produção de insulina, entre outros fatores importantes para a restauração e equilíbrio de funções vitais.
Em condições adequadas, quando a glândula pineal começa a produzir melatonina sem que ocorram interrupções pela incidência de luz artificial, este hormônio indispensável ajuda a regular o ritmo circadiano e a sincronizar nosso ciclo sono-vigília com a noite e o dia, auxiliando, inclusive, a prevenir as indesejáveis interrupções no sono.
Assim, podemos discernir melhor como a melatonina facilita e promove um descanso consistente e de qualidade.
Para Quê Serve A Melatonina Além Dos Benefícios À Qualidade Do Sono?

Em adultos, os benefícios potenciais mais claros da melatonina são para pessoas que têm problemas de sono relacionados ao transtorno da fase de sono-vigília e jet lag. Estudos indicam que baixas doses de melatonina tomadas antes da hora de dormir já podem ajudar as pessoas a sofrerem menores efeitos relacionados com tais complicações, bem como auxiliar o seu ciclo de sono.
No entanto, mesmo conhecida como o “hormônio do sono”, a melatonina tem benefícios que vão muito além da melhoria de insônia e outras desregulações de sono e possui diversas outras ações comprovadas ou investigadas. Confira algumas delas a seguir:
- Imunomodulatória: atua no sistema imunológico, agindo sobre linfócitos, citocinas e outros, promovendo melhora da resposta orgânica de defesa contra microorganismos como vírus, bactérias e fungos.
- Anti-inflamatória: a partir da regulação da enzima ciclooxigenase (COX-2), age no organismo inibindo a produção de uma substância chamada prostaglandinas, a qual está relacionada com o surgimento de quadros inflamatórios.
- Antioxidante: a atividade antioxidante inibe radicais livres presentes em excesso no organismo, reduzindo impactos causados por estes elementos, como estresse oxidativo e o envelhecimento precoce dos tecidos. Considerada um poderoso antioxidante natural, a melatonina auxilia a regulação de pró-oxidantes envolvidos na síntese do óxido nítrico e lipoxigenases.
- Cronobiológica: a melatonina possui função essencial na regulação dos ritmos biológicos do organismo. Dentre todas as ações, esta é a melhor demonstrada pela melatonina.
- Antitumoral: quando aliada a tratamentos como a quimioterapia, o uso da melatonina pode apresentar melhorias na taxa de remissão de tumores em vários tipos de câncer, como pulmão, mama e próstata. No organismo, ela age inibindo mitoses e suprimindo a recaptação do ácido linoléico, regulando, assim, receptores de estrogênio.
Existem Fontes De Melatonina Além Dos Suplementos?

Conforme já comentamos, atualmente é possível adquirir suplementos de melatonina em todo o Brasil na forma líquida, em comprimidos, gomas ou cápsulas. Mas, de acordo com o artigo Dietary Sources and Bioactivities of Melatonin (Fontes Dietéticas e Bioatividades da Melatonina), a melatonina também pode ser encontrada em diversos alimentos, que vão de animais e plantas até fungos.
Porém, mesmo que o consumo de melatonina através de alimentos não possua nenhum efeito adverso e sua assimilação por meio de refeições seja mais proveitosa à noite, é muito difícil superar a dosagem e os efeitos benéficos oferecidos por suplementos.
A título de curiosidade, confira algumas fontes alimentícias que apresentam melatonina em sua composição:
- Alimentos de origem animal: nos alimentos de origem animal, a melatonina é muito mais presente em peixes e ovos que em carnes. No leite materno e no leite fornecido por outros animais, também há a presença de melatonina, inclusive em maiores concentrações caso a ordenha ocorra no período noturno.
- Cereais: o trigo, a cevada e a aveia são os cereais com maior concentração de melatonina. No arroz, os grãos inteiros apresentam maiores níveis de melatonina em comparação com o arroz polido. Enquanto isso, no pão há mais presença do hormônio no miolo do que na casca.
- Frutas: a melatonina pode ser encontrada em muitas frutas de consumo comum, dentre as quais destacam-se banana, uva, morango e cereja. É interessante destacar que essa concentração também varia num mesmo fruto. Por exemplo: as cerejas mais azedas possuem maior concentração de melatonina.
- Vegetais: os níveis de melatonina são indetectáveis em batatas e muito baixos em beterrabas. Em contrapartida, foram identificados níveis altos do hormônio em pimentões e tomates. Cogumelos também possuem boa taxa de melatonina.
- Leguminosas, sementes e castanhas: a melatonina está em muitas leguminosas, sementes e castanhas, mas se destaca em sementes de mostarda branca e preta e em pistaches. Além disso, o processo de germinação de leguminosas e sementes é capaz de aumentar os níveis de melatonina.
Artigo produzido por redator freelancer.
Referências:
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28503116/
- http://files.bvs.br/upload/S/0101-8469/2008/v44n1/a5-11.pdf
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5409706/
- https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2021/proposta-de-consulta-publica-inclui-a-melatonina-como-constituinte-autorizado/analise-da-seguranca-e-eficacia-da-melatonina_versao-para-publicacao.pdf
- GLANZMANN, Ronald et al. O USO DA MELATONINA COMO INDUTOR DO SONO – UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA. Uningá Journal, [S.l.], v. 56, n. 1, p. 157-167, mar. 2019. ISSN 2318-0579. Available at: <http://revista.uninga.br/index.php/uninga/article/view/2094>. Date accessed: 09 abril 2022.
- Poeggeler B et al: Melatonin, hydroxyl radicals – mediated oxidative damage and aging: a hypothesis J. Pineal Res. 14: 151-168, 1993.