Como esse é um tema pouco conhecido, vamos dar início com uma explicação bem básica para que você possa entender o que são os corpos cetônicos.
Os corpos cetônicos são produzidos no corpo como um subproduto do metabolismo da gordura, gerando beta-hidroxibutirato e acetoacetato. Vamos trazer isso para a prática: quando não há carboidratos e determinados aminoácidos na alimentação para formar um intermediário do metabolismo (oxaloacetato), peça fundamental para nossa produção energética, não é possível que essa gordura seja totalmente oxidada gerando energia. A gordura acaba sendo desviada para o fígado formando os corpos cetônicos.
Resumindo, quando não é possível queimar a gordura de maneira direta, o corpo procura um caminho alternativo para continuar gerando energia mesmo sem a melhor condição, utilizando uma fonte alternativa de energia.
O cérebro normalmente funciona com glicose como único combustível. Durante a fome, a glicose não está disponível, por isso o cérebro desenvolve a capacidade de usar um combustível alternativo: cetonas. Usualmente, acredita-se que essa seja a função principal dos corpos cetônicos e, como a fome é muito rara no mundo ocidental, ela recebeu menos atenção. No entanto, observou-se na década de 1960 que as cetonas são facilmente utilizadas pelos músculos.
Por esse motivo, o assunto tem despertado muito interesse dos pesquisadores, atletas e treinadores amadores e de elite que estão incessantemente procurando métodos de treinamento e estratégias de nutrição para apoiar seus esforços de treinamento e recuperação e que possam maximizar o desempenho do atleta.
Recentemente, tem havido um interesse renovado no papel dos corpos cetônicos no metabolismo do exercício e tem havido considerável especulação da mídia sobre os suplementos de cetona usados rotineiramente por ciclistas profissionais. Os corpos cetônicos podem atuar como importantes precursores de energia sob certas condições, por exemplo, a fome, e podem modular o metabolismo de carboidratos e gorduras.
Foi demonstrado que a ingestão de carboidratos durante o exercício prolongado melhora o desempenho do exercício e há indicações de que o aumento do combustível ingerido pode ser benéfico.
No entanto, foi demonstrado que os carboidratos de bebidas, géis ou alimentos sólidos só podem ser absorvidos e chegar aos músculos na taxa de 1,5 g/minuto, mas temos indivíduos com intestinos treinados, na sua grande maioria sendo 1,0 g/minuto, o que equivale a cerca de 240 a 360 kcal/h. Existem relatos de uso além desses números, porém são poucas pessoas que conseguem chegar além disso, pois requer muito tempo e dedicação, e essa energia extra não é suficiente, já que um ciclista pode incinerar até 1000 kcal/minuto em poucas horas.

Solução Mágica dos Corpos Cetônicos?
Será que as cetonas seriam a pílula mágica para manutenção do exercício? Achamos uma nova rota energética para o atleta?
Em teoria, sim, já que ter o poder de constituir um combustível complementar ou alternativo seria de grande valia, mas isso requereria a ingestão de grandes quantidades de potássio ou sódio, o que leva a problemas de estômago, pois são de difícil absorção.
Na Universidade de Oxford, no Reino Unido, sob a orientação do especialista professor Kieran Clarke, foi desenvolvido um éster de cetona que parecia prevenir alguns desses problemas.
Teoricamente, podemos fornecer combustível que adiciona energia extra aos músculos, usados rapidamente sem precisar que os atletas tivessem uma dieta cetogênica. Os atletas podem comer carboidratos e ainda adicionar cetonas, o que é uma situação em que todos saem ganhando, pois sabemos que os carboidratos são uma fonte essencial de combustível para exercícios intensos e a redução da disponibilidade de carboidratos pode prejudicar o desempenho dos atletas.
Outra desvantagem é que os ésteres de cetona recém-desenvolvidos são muito caros (custando cerca de 2.000 ou 3.000 euros por litro). O gosto é outra questão, o que leva as empresas a utilizarem baixas dosagens de ésteres de cetona nos suplementos que já existem no mercado para evitar um gosto ruim (amargo) e um custo elevado.
Uma das soluções poderia ser o MCT (Medium Chain Triglycerides), triglicerídeos de cadeia média, pois são rapidamente absorvidos e convertidos em corpos cetônicos. São facilmente utilizados pelo músculo (uma porção significativa convertida em cetonas). No entanto, o principal fator limitante é que quando foi fornecido aos atletas mais de 30 gramas, eles até correram mais rápido, mas para o banheiro. Isso causou um desconforto gastrointestinal significativo.
Conclusão
Chegamos a conclusão que, embora alguns estudos tenham começado a sinalizar alguns efeitos da suplementação de corpos cetônicos durante o exercício, não há evidências significativas de que os corpos cetônicos tenham efeitos no desempenho. Não recomendo o uso e não faz parte da minha prática clínica.
Referências
Pinckaers, P.J.M., Churchward-Venne, T.A., Bailey, D. et al. Ketone Bodies and Exercise Performance: The Next Magic Bullet or Merely Hype?. Sports Med 47, 383–391 (2017). https://doi.org/10.1007/s40279-016-0577-y