Eixo intestino-cérebro: entenda a relação - Novidade Saudável
Eixo intestino-cérebro

Eixo intestino-cérebro: entenda a relação

Avatar de Hayane Leite Escrito por   | 10 de agosto de 2023

Há muito se sabe que a função do intestino não se limita apenas à digestão dos alimentos que comemos, como defendido no passado. Hoje, sabe-se que o intestino é um órgão com múltiplas funções que envolvem, principalmente, a defesa do nosso corpo contra a invasão de agentes nocivos à saúde, já que cerca de 70% das células do sistema imunológico encontram-se no intestino; produção de hormônios que irão atuar localmente ou viajar por todo o corpo e atuar em diferentes órgãos e produção de substâncias que modificam a atividade do cérebro.  

O intestino se conecta intimamente com o sistema nervoso central através de comunicação bidirecional dinâmica ao longo do eixo intestino-cérebro. A conexão entre o ambiente intestinal e o cérebro pode afetar o humor, a cognição e o comportamento humano. 

Entendendo a microbiota intestinal

A microbiota é o conjunto de microorganismos (vírus, bactérias e fungos) que habitam todo o tubo gastrointestinal, da boca ao ânus. E a microbiota intestinal compreende os micróbios que vivem especificamente no intestino. Trilhões de bactérias, de diferentes espécies, sobrevivem em nosso intestino e estão em constante atividade. Durante sua sobrevivência, esses microrganismos produzem diversas substâncias que irão interagir com o nosso corpo, de maneira direta ou indireta. 

Qual o papel da microbiota intestinal na saúde

Os produtos do metabolismo das bactérias atuam localmente no intestino ou viajam pelo nosso corpo pela corrente sanguínea ativando o sistema imunológico para a produção de agentes de defesa e atuando em diferentes órgãos, estimulando a produção de novas substâncias e hormônios e até neurotransmissores. Toda essa engrenagem, quando em  sincronia, permite a manutenção do equilíbrio do nosso corpo, refletindo saúde. 

Porém, situações que promovem desequilíbrios na composição desses micróbios intestinais têm sido implicadas no desenvolvimento de várias doenças, incluindo distúrbios neurológicos e doenças neuropsiquiátricas. Isso acontece porque as bactérias que moram no intestino estão em constante atividade, produzindo constantemente substâncias, produtos do seu metabolismo, que uma vez liberados por elas podem atravessar a barreira intestinal, alcançar a corrente sanguínea e serem transportados para o sistema nervoso, exercendo ação na atividade cerebral e consequentemente na saúde mental. 

Eixo intestino-cérebro

O que é o eixo cérebro-intestino?

O termo eixo intestino-cérebro é utilizado para indicar uma relação bidirecional entre o intestino e o sistema nervoso. Essa comunicação dinâmica é facilmente percebida no nosso dia-a-dia. Com certeza, durante algum momento da sua vida, você se viu em um estado de maior estresse, ansiedade ou angústia, por exemplo, na véspera de uma prova importante ou de uma entrevista de emprego, e seu intestino se comportou de uma maneira diferente.

Ou em situações em que seu intestino não estava funcionando tão bem, como em quadros de prisão de ventre e você se viu mais ansioso e estressado por causa disso. 

Você pode até não se dar conta dessa conexão, mas posso te assegurar que ela existe e já foi comprovada por diversos estudos científicos. 

Qual a relação entre o intestino e doenças psiquiátricas?

Acredita-se que ao compreender a relação entre intestino e cérebro, seria possível entender a ligação entre diversas doenças, especialmente ansiedade, depressão, doenças neurodegenerativas e obesidade.

Isso porque as bactérias que habitam o intestino produzem substâncias que se comunicam diretamente com o cérebro ou indiretamente modulando a atividade cerebral. Assim, a ocorrência de alterações na microbiota intestinal pode contribuir para o desenvolvimento desses diversos transtornos neuropsiquiátricos.

O nosso intestino é todo revestido por células que formam uma barreira protetora. Essas células se mantêm firmemente ligadas por junções apertadas para impedir que substâncias e agentes nocivos à saúde atravessem o intestino e alcancem o sangue. E, além dessa função protetora, existem também células capazes de produzir hormônios e neurotransmissores, como a serotonina. Os neurotransmissores são mensageiros químicos que transmitem sinais para os neurônios, modulando o comportamento humano. 

Já é muito estabelecida a função da serotonina no sistema nervoso. Quando liberada no corpo, promove a sensação de bem-estar e satisfação. Além disso, esse calmante natural controla o sono, regula o apetite e a energia. Desse modo, é conhecido como “substância do prazer”, e a falta desse neurotransmissor no corpo pode desencadear depressão, estresse, ansiedade, depressão, TDAH, epilepsia e doença de Parkinson, dentre outros problemas. 

Porém, mais recentemente, houve uma descoberta importante para a ciência que reitera a afirmação: “O intestino é o segundo cérebro humano”. Descobriu-se que a própria microbiota intestinal também é capaz de produzir serotonina e outros neurotransmissores como GABA e dopamina, e substâncias precursoras de serotonina, como o aminoácido triptofano. Especificamente, o aminoácido triptofano tem sido considerado um mediador fundamental da depressão, pois alterações no seu metabolismo ou em condições que aumentam a sua degradação (=destruição) levam a um desequilíbrio na síntese de serotonina, desempenhando um papel irrefutável no desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas. Curiosamente, mais de 90% do triptofano no corpo é produzido no intestino.

Portanto, desequilíbrios na composição de bactérias do intestino podem influenciar na produção de neurotransmissores e, consequentemente, no desenvolvimento de transtornos de humor e de doenças psiquiátricas. Especificamente, a serotonina ou seu precursor (triptofano) podem atravessar a barreira intestinal e viajar pela corrente sanguínea, interagindo com o sistema imunológico ou enviando sinais para o cérebro, modulando o comportamento e a atividade cerebral.

Em um estudo bem recente de 2023, Zhou e colaboradores encontraram diferenças significativas na abundância de bactérias que vivem no intestino de adolescentes com depressão que não eram encontradas em adolescentes saudáveis, sem depressão. E o mais interessante, após esses adolescentes receberem o tratamento adequado com antidepressivo (sertralina), essas diferenças desapareceram. E as descobertas não param por aí.

Curiosamente, o transplante da microbiota fecal (é isso mesmo, hoje já é possível esse tipo de transplante e podemos conversar sobre isso em um momento próximo) de adolescentes saudáveis para camundongos deprimidos melhorou significativamente os comportamentos depressivos dos ratos. 

Além disso, alterações na produção de neurotransmissores no intestino também irão exercer efeitos locais. A serotonina intestinal possui uma ação local, aumentando a velocidade do trânsito intestinal e estudos já demonstraram que pacientes que sofrem com problemas intestinais, especialmente pacientes com constipação crônica possuem menores níveis intestinais de serotonina. 

O inverso também é verdadeiro. Algumas condições neuropsiquiátricas, como o estresse e a ansiedade, podem impactar no funcionamento do intestino, promovendo danos na barreira que reveste o intestino, aumentando o trânsito de substâncias do intestino para a circulação sanguínea, fenômeno descrito como permeabilidade intestinal (em inglês, leaky gut). O estresse aumenta os níveis de cortisol que afetam a integridade da barreira intestinal, altera o ambiente intestinal e altera a composição de bactérias no intestino.

Esse hormônio do estresse perturba o sistema gastrointestinal e leva ao desequilíbrio da microbiota intestinal, aumentando assim o risco de doenças, como a síndrome do intestino irritável (SII). A SII, que antes era considerada uma doença gastrointestinal funcional, hoje é considerada um distúrbio do eixo intestino-cérebro. 

Assim, tanto o cérebro pode exercer impactos nas atividades do intestino quanto o próprio intestino pode agir sobre a atividade nervosa. Portanto, o fluxo de informações que acontece entre o eixo cérebro-intestino é bidirecional e ainda não sabemos o que é causa ou consequência.

Podemos modificar nossa microbiota intestinal a fim de prevenir ou tratar doenças neuropsiquiátricas?

A compreensão dos mecanismos que envolvem essa interação cérebro-intestino surge como uma promissora oportunidade terapêutica para o tratamento de doenças, como ansiedade e depressão. A possibilidade de modificar a composição de bactérias que vivem no intestino, o que chamamos de modulação intestinal, com modificações no consumo alimentar, uso de probióticos (microrganismos vivos que quando consumidos de maneira regular dentro de uma alimentação saudável promovem benefícios à saúde), prebióticos (o alimento das bactérias que vivem no nosso intestino) e antibióticos, parece ser uma terapia auspiciosa para o tratamento de doenças neuropsiquiátricas.

Padrões alimentares baseados em um abundante consumo de alimentos de origem vegetal, como frutas, verduras, folhosos, legumes e cereais integrais, fontes de compostos bioativos e prebióticos, são os mais estudados para modular positivamente a microbiota intestinal, pois aumentam a abundância de bactérias marcadoras de saúde, mantendo o equilíbrio de microrganismos que habitam o intestino. 

Estudos já demonstraram que a ingestão de probióticos pode aliviar os efeitos do estresse no corpo, pois reforça significativamente a barreira intestinal e mantém o equilíbrio da microbiota intestinal, que por sua vez afeta diretamente a síntese de hormônios e neurotransmissores

Uma meta-análise de 2019 que incluiu 34 estudos randomizados controlados com adultos com depressão que receberam suplementação de probióticos demonstrou que a suplementação promoveu efeitos pequenos, mas significativos na melhora do comportamento depressivo. Outra meta-análise ainda mais recente (2020) que investigou o uso de probióticos em pacientes adultos saudáveis sob estresse ou com diagnóstico de depressão ou transtorno de ansiedade exibiu resultados promissores ao aliviar os sintomas depressivos.

No entanto, não houve diferenças significativas no alívio dos sintomas da ansiedade. É interessante notar, nesse mesmo estudo, que não houve efeitos notáveis no comportamento de pacientes saudáveis sob estresse (ou seja, sem depressão e ansiedade) com a suplementação de probióticos. Portanto, os autores sugeriram que os probióticos poderiam ser usados como terapias adjuvantes para o tratamento da depressão, mas que as evidências ainda são insuficientes.

Um estudo bem interessante (2021) avaliou os efeitos do consumo diário de probiótico sobre a ansiedade competitiva, estresse percebido e humor entre jogadores universitários de badminton com idades entre 19 e 22 anos. Após seis semanas, os níveis de ansiedade e estresse dos jogadores que receberam os probióticos diminuíram significativamente em 16% quando comparados aos atletas que não receberam a suplementação. Os autores concluíram que os probióticos promovem alívio da ansiedade e do estresse. 

Não há dúvidas que os resultados encontrados na literatura são bem animadores, mas ainda não é possível realizar recomendações fortes, pois mais estudos de alta qualidade ainda são necessários para determinar os mecanismos pelos quais a ingestão de probióticos produz esses efeitos.

Embora a modificação do mecanismo do eixo cérebro-intestino ainda não tenha sido adotada clinicamente, espera-se, em um futuro próximo, que novas estratégias empregando esse mecanismo sejam desenvolvidas e implantadas como novos tratamentos não apenas para transtornos de ansiedade, mas também para outras doenças psiquiátricas. Veja mais no Novidade Saudável.

Referências: 

  • Zhou, M., Fan, Y., Xu, L. et al. Microbiome and tryptophan metabolomics analysis in adolescent depression: roles of the gut microbiota in the regulation of tryptophan-derived neurotransmitters and behaviors in human and mice. Microbiome 11, 145 (2023). https://doi.org/10.1186/s40168-023-01589-9
  • Hongyun Zhang, Ziying Wang, Guangqiang Wang, Xin Song, Yangyang Qian, Zhuan Liao, Li Sui, Lianzhong Ai, Yongjun Xia, Understanding the Connection between Gut Homeostasis and Psychological Stress, The Journal of Nutrition, Volume 153, Issue 4, 2023, Pages 924-939. https://doi.org/10.1016/j.tjnut.2023.01.026
  • Salleh, R.M.; Kuan, G.; Aziz, M.N.A.; Rahim, M.R.A.; Rahayu, T.; Sulaiman, S.; Kusuma, D.W.Y.; Adikari, A.M.G.C.P.; Razam, M.S.M.; Radhakrishnan, A.K.; et al. Effects of Probiotics on Anxiety, Stress, Mood and Fitness of Badminton Players. Nutrients 202113, 1783. https://doi.org/10.3390/nu13061783
  • Chao Limin, Liu Cui, Sutthawongwadee Senawin, Li Yuefei, Lv Weijie, Chen Wenqian, Yu Linzeng, Zhou Jiahao, Guo Ao, Li Zengquan, Guo Shining. Effects of Probiotics on Depressive or Anxiety Variables in Healthy Participants Under Stress Conditions or With a Depressive or Anxiety Diagnosis: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Frontiers in Neurology, 2020. https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fneur.2020.00421. 
  • Liu, R. T., Walsh, R. F. L., & Sheehan, A. E. (2019). Prebiotics and probiotics for depression and anxiety: A systematic review and meta-analysis of controlled clinical trials. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 102, 13–23. doi:10.1016/j.neubiorev.2019.03.023

Sobre o autor

Hayane Leite

Hayane Leite

Nutricionista

Hayane Leite é nutricionista clínica e esportiva com expertise em saúde intestinal, com Graduação em Nutrição pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Especializações em Nutrição Esportiva Funcional pela Faculdade Cruzeiro do Sul e Instituto VP e Nutrição Clínica pela UFPE. Possui ainda diploma de Natural Chef pela Escola Natural Chef Brasil e aprimoramento em Saúde Intestinal. É docente de pós-gradução em Gastroenterologia e Saúde Intestinal e atua há mais de 8 anos na área de nutrição, tendo acompanhado mais de 1000 pacientes. Instagram: @nutrihayaneleite

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